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Jonas, o Copromanta - Patrícia Melo
Sumo mistério ou simples miséria? Segredos ocultos ou sordidez à mostra? Com esta fábula carioca feita de desvario e solidão, Patrícia Melo inscreve o seu herói singular na galeria romanesca de pobres-diabos que é um dos veios centrais da literatura brasileira.
PREÇO :
€11.34
Preço de Mercado :
€12.60
Sobre o Livro :
Conta a Bíblia que, fugindo a um mandato divino, Jonas é engolido por uma baleia, em cujo ventre desce ao fundo dos mares. À sua imagem e semelhança, o Jonas do novo romance de Patrícia Melo embarca numa viagem comparável, a bordo das suas próprias obsessões e muito além do seu quotidiano mesquinho.
Numa sala mortiça da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, Jonas carimba papéis sem muita pressa, esquiva-se das insinuações de Eunice e aceita sem muito ardor as investidas de Darlene.
Leitor de romances e escritor apenas virtual, o novo Jonas quer ver, nos dejectos do seu ventre, os augúrios do destino próprio e alheio. Corrigir romances, decifrar fezes. Meras esquisitices, inofensivas até ao momento em que se cruzam no espírito do protagonista: depois da leitura de “Copromancia”, conto de Rubem Fonseca, Jonas tem a intuição, ou melhor, a certeza, de ter sido plagiado pelo próprio ídolo. É então que a realidade resolve colaborar com a obsessão e o escritor passa a frequentar a biblioteca, para fazer (ou talvez simular) uma pesquisa para seu próximo romance…
PATRÍCIA MELO (Brasil) é romancista, dramaturga e argumentista.
Publicou "Acqua Toffana", "O Matador" (Prémios Deux Océans e Deutsch Krimi; nomeação para o Prix Femina de romance estrangeiro; adaptado ao cinema em 2003 com o título "O Homem do Ano"), "O Elogio da Mentira", "Inferno" (Prémio Jabuti; nomeação para o Foreign Fiction Prize 2003, Inglaterra), "Valsa Negra", "Mundo Perdido" e "Jonas, o Copromanta"; todos os títulos foram editados em Portugal pela Campo das Letras.
Em 1999 a Time Magazine inclui-a entre os cinquenta "Latin-American Leaders for the New Millenium".
As suas obras estão traduzidas em Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, Holanda, Grécia, Finlândia e China, entre outros países.
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- ENTREVISTA –
PATRÍCIA MELO: «O AUTOR TAMBÉM É UM PERSONAGEM PARA O LEITOR»
Por PEDRO JUSTINO ALVES (http://diariodigital.sapo.pt)
Patrícia Melo está de regresso às livrarias nacionais com «Jonas, o Copromanta», editado pela Campo das Letras. Através da leitura das fezes temos uma homenagem a um escritor em particular, Rubem Fonseca, mas também a toda a literatura em geral. Ao mesmo tempo, a brasileira reflecte sobre a relação autor-leitor.
Jonas, além de ler o futuro através da análise das suas fezes (ilustradas no livro para exemplificar melhor as conclusões do personagem) recorrendo a técnicas de criptografia, gosta de alterar o final das grandes obras da literatura mundial, como acontece por exemplo com «Lolita», de Nabokov.
Funcionário da Biblioteca Nacional, a sua existência não assola ninguém, nem mesmo Darlene e Eunice, que lutam pela sua atenção. No entanto, quando Jonas acredita que o seu ídolo Rubem Fonseca o plagiou no conto «Copromancia», tudo se altera, ainda mais quando tem conhecimento que o escritor, um dos personagens principais de «Jonas, o Copromanta», frequenta a Biblioteca Nacional…
Loucura, obsessão, thriller, solidão, angústia. Patrícia Melo surpreende mais uma vez, desta vez num tema que não é habitual encontrarmos na sua literatura. Literatura que é homenageada nesta obra, assim como Rubem Fonseca, transformado sem saber em peça activa do romance da brasileira.
P: O livro é uma homenagem a um escritor em particular, Rubem Fonseca. Qual a importância dele na sua carreira? Sei que escreveu, por exemplo, o argumento de um livro de Rubem Fonseca para o cinema.
R: Rubem Fonseca é, na minha opinião, o autor que inaugurou a escola urbana da literatura brasileira. Antes dele, a nossa literatura era essencialmente regional. Rubem Fonseca mostrou-nos a cidade, o homem moderno, desesperado, perdido nessa nova realidade. Ele é uma referência para vários escritores brasileiros e, evidentemente, para mim. Trabalhámos juntos em vários projectos para cinema, entre eles as adaptações de «Bufo & Spallanzani» e do meu romance «Matador», que o filho de Rubem Fonseca, José Henrique, realizou.
P: Como foi a reacção de Rubem Fonseca quando soube que seria um personagem do seu livro? Ele aceitou de imediato fazer parte da sua história?
R: Ele gostou muito. O livro é uma homenagem a ele. E, modéstia a parte, fiz um retrato bem fiel de Rubem Fonseca.
P: Como concebeu o personagem Jonas? E a história em si, ela surgiu após ter lido o conto «Copromancia» de Rubem Fonseca?
R: Eu queria escrever sobre a relação autor-leitor. Queria falar dessa confusão que fazemos e que Philip Roth chama de Síndrome de Zukerman, que é quando o leitor toma o autor por algum personagem do romance. Pensei que seria mais interessante se usasse um autor que eu gosto muito como o meu personagem. Esse foi o ponto de partida.
P: Escreveu sobre um tema escatológico que poderia e pode afastar alguns leitores. Não temeu isso aquando da sua escrita?
R: O livro tem muito humor e isso faz com que a temática não seja pesada. Além do mais, a escatologia é um elemento da narrativa. O importante na história é o sonho de Jonas, a sua tentativa de escapar de uma realidade miserável e a sua salvação pela literatura.
P: Ao escrever sobre os excrementos de Jonas acaba por entrar por inteiro na intimidade do personagem. Que espécie de empatia criou com ele?
R: Jonas é como uma criança: frágil, sonhador, não tem compreensão alguma da realidade que o cerca. É fácil amar uma pessoa assim. Além disso, como você disse, há muito humor nas situações que Jonas cria. Eu me diverti muito enquanto escrevia o romance.
P: Este livro foge um pouco ao que já habituou os seus admiradores/leitores (por exemplo, há mais humor e menos violência). Sentiu necessidade de entrar em outro registo? Porque?
R: Talvez. Havia acabado de escrever «Mundo Perdido» e queria tentar algo diferente. Queria uma história cheia de sonho, num contexto de miséria.
P: O livro é antes de tudo uma homenagem a literatura, a relação entre o leitor e o autor, uma relação que muitos pensam ser pacífica mas que a Patrícia Melo retrata como idêntica a que vemos todos os dias no meio musical ou artístico. A relação entre o leitor e o autor é perigosa? Como analisa esta relação nos nossos dias?
R: Acho que a relação autor-leitor é sempre fantasiosa. O leitor sempre acha que o autor está ali, escondido naquelas linhas, naqueles personagens, que as ideias dos personagens são na verdade ideias do próprio autor. Claro que há sempre muito do autor, da sua biografia e das suas crenças nas suas histórias e personagens, mas não da maneira como o leitor imagina. Eu sou leitora e, como tal, também fantasio muito. Acho que isso faz parte do sonho que a literatura proporciona. O autor também é um personagem para o leitor.
P: Acredita que muitos leitores se colocam no papel das personagens criadas pelos escritores?
R: Sim, acho que há muita identificação. Acho também que esse espelhamento permite reflexão.
P: A verdade é que Jonas tem uma vida sem graça e é na literatura que encontra a sua existência. Isso também acontece na vida real, ou não?
R: Infelizmente, cada vez lê-se menos. As pessoas nem sabem que as suas vidas são desinteressantes e as tornam mais desinteressantes ainda gastando muito tempo em frente a televisão e ao computador. Acho que as pessoas não sabem mais ficar em silêncio, sozinhas, com um livro na mão. Há dez, 15 anos atrás você entrava no metro em Paris e todo mundo estava a ler. Hoje, todo mundo está a mexer no seu telemóvel. Roth disse certa vez que essa conversa de crise do romance é uma bobagem. Concordo com ele. Crise séria é a crise do leitor!
P: Um dos temas centrais na obra é o plágio, um dos grandes problemas actuais dos escritores, que são constantemente acusados de plagiar. Como analisa o plágio e tudo o que ele envolve?
R: Quem plagia revela duas fraquezas: a falta de imaginação e a burrice de acreditar que ninguém vai descobrir. O Google acabou com a festa dos plagiadores.
P: Obsessão e loucura sempre fascinaram os autores, nas letras e nas artes em geral. Porque são temas tão apaixonantes?
R: Porque mostram o homem numa situação extrema, em que ele perde o controle sobre a sua própria vida. De facto, o que nos mobiliza é a ideia da perda de controlo.
P: Apesar de seduzir as mulheres, a verdade é que Jonas acaba por ser um fantoche nas mãos delas. Há uma clara dicotomia entre a passividade dele nas suas relações e a obsessão que tem por Rubem Fonseca. Como explica isso?
R: O ser humano é assim, complexo. Isso, na minha opinião, é o grande desafio para os autores: conseguirem traçar com verosimilhança o perfil caleidoscópico e confuso do ser humano.
P: Jonas acaba por perdoar Rubem Fonseca. Um perdão que pode ser estendido a própria literatura? Bem ou mal, Jonas pretende modificar o final de vários clássicos…
R: Eu não havia pensado nesses termos. É uma visão interessante. Jonas continua esperando algo da vida. Continua acreditando que algo fará dela, uma vida especial, cheia de significado.
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«JONAS, O COPROMANTA» DE PATRÍCIA MELO - CAMPO DAS LETRAS
Por Pedro Teixeira Neves (www.pnetliteratura.pt)
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso da autora. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.
Copromanta. Assim mesmo, de chofre, no título. Atirado à cara dos leitores ignorantes do significado de tal palavra. Mas existe? Se não existia, passou a existir depois que chegou à capa do mais recente romance de Patrícia Melo editado em Portugal. Assim justamente: «Jonas, o copromanta». Atenção, porém, «copro» existe, existe mesmo, elucidando(-me) a um tal respeito o dicionário (Porto Editora, 2004) ser «um elemento de formação de palavras que exprime a ideia de excremento, obscenidade (Do grego Kópros, “excremento; sujidade”)». Pois bem, perguntarão, e que têm os excrementos que ver com um romance, com literatura? Acaso excremento é matéria literária? Se sim, de mau gosto, dirão, ou de mau cheiro, certamente. Ou então, de escriba de terceira, um sacripanta, no mínimo. Nada disso, muito pelo contrário. Se território existe que não estabelece fronteiras ou limites ele é o da escrita. E daí este romance com este título assaz curioso, tão curioso e rústico como o seu enredo, que nos chega às livrarias vindo não de mão arrivista ou novel à escrita, antes de autor (no caso autora) dos mais creditados no actual panorama da língua de Camões, a já aludida Patrícia Melo.
Descansem, porém, ao contrário de alguns livros infantis que vão chegando ao mercado com cheiro nas páginas (a chocolate ou baunilha, por exemplo) este não vem com cheiro, apesar do seu título sugestivo. Vem, sim, com alguns desenhos, desenhos de fezes, ou não fossem elas o leit motiv a engrenar o enredo em mãos. Não se agaste desde já o leitor, quando muito fique de sobreaviso para algumas passagens que talvez não convenha ler à refeição. Veja antes no sui generis argumento motivo para dele retirar eloquente prazer literário. De qualquer modo, porque não falar de fezes em literatura? Não poderemos nós, leitores, colher em tal assunto igual prazer estético-literário como em qualquer outra matéria? Em última análise, como lembra o Jonas de Patrícia Melo: «Sabemos que o acto de defecar – do latim defecare, clarificar, purificar – gera tanto prazer quanto o de comer – do latim comedere, roer, estragar –, ainda que o gáudio do primeiro seja de natureza distinta, ligado à sensação de purgação. Paradoxalmente, seu status é de bestialidade, e tudo o que diz respeito a sua essência serve apenas para nos esfregar na cara nossa condição animal.»
Estabelecido o intróito elucidativo, que apenas serviu, mais não fosse, para atestar do grau de liberdade criativo dos autores (dos brasileiros, não dos portugueses? – não sei, mas é provável que todos nós dificilmente seríamos capazes de imaginar uma Lídia Jorge a embrenhar-se em tal “hermenêutica”), vamos ao osso da questão. Quem é afinal Jonas, o tal copromanta? Jonas é um cidadão anónimo, bibliotecário no Rio de Janeiro, um ilustre anónimo viciado na literatura de Rubem Fonseca, o mestre do romance contemporâneo brasileiro. Solitário, vive acossado pelos passes de duas colegas de trabalho, Eunice e Darlene, com quem mantém aventuras e fogachos amorosos inconsequentes, enquanto, nas horas livres, se entretém a reescrever romances alheios (de escritores de renome, que vão de Poe a Nabokov). Um dia, Jonas, que tem ainda o estranho hábito de ler o futuro nas fezes (que diariamente analisa e regista), lê um conto de Rubem Fonseca «Copromancia», incluído em «Excreções, Secreções e Desatinos», e percebe que o celebrado (e salafrário) autor escreveu um texto em que simplesmente plagia a sua vida! Começa então uma perseguição ao autor com o intuito de o confrontar com a miséria e vergonha do seu acto, tê-lo plagiado; afinal de contas, quantos de nós se poderão gabar de ser copromantas?...
Num registo sempre próximo do hilariante, claramente no âmbito do absurdo, Patrícia Melo escreve uma narrativa que se atravessa com um riso de orelha a orelha. Escreve-a bem, diga-se, com muito ritmo, sempre doseando a prosa com um quê de suspense (também com uma pitada de sexo), a todo o instante fazendo-nos crer ou adivinhar que de uma momento para o outro a insânia de Jonas poderia descambar numa tragédia. Enquanto Jonas tenta resolver o mistério do seu plágio (mais não fosse porque a história da sua vida emprestada às páginas de Rubem Fonseca lhe deveria valer alguns direitos de autor), demora-se Patrícia Melo no cozinhar das vidas das personagens secundárias que gravitam em torno de Jonas. Afastado da Biblioteca Nacional, por denúncia de perseguição ao seu autor predilecto, Jonas acaba por deslindar o caso depois de conhecer uma rapariga que nas ruas entrega folhetos publicitários. No entretanto, ensaia desenvolver a sua técnica de leitura e interpretação de fezes, fazendo previsões de futuro. O problema é quando o que as fezes lhe dizem não é o que ele esperava.
Deixando fluir a palavra, nada de sobrenatural, literariamente falando, vem à babugem desta história. Bem esgalhada, bem estruturada, sem percalços de avanços e recuos, aquilo que nela mais se impõe e fica na retina aos olhos do leitor acaba por ser o seu carácter de singularidade. De outro modo, é o ser humano, anónimo e comum, visto por dentro e à luz das suas mais recônditas paixões e estranhos hábitos (muitas vezes perigosamente rondando a violência ou a loucura), aquilo que Patrícia Melo nos dá a percepcionar. É sabido, de resto, e qual o escritor que não pensa nisso, que por trás de cada pessoa há uma história e um romance potencial. Pois o que Patrícia Melo faz não é mais do que trazer isso à evidência, tornando protagonista de livro um mais do que cinzento e incógnito bibliotecário com uma pancada facilmente identificável (excepto, está de ver – ou de ler – pela “presciência” de um médico vidrado em Heidegger). Uma vez mais, é pois o lado obscuro do ser humano aquele que interessa a Patrícia Melo perscrutar e trazer à tona. Finalizando, parecer-me-ia incauto não fazer notar que, por entre as pinceladas do respirar das ruas que os personagens habitam e cruzam, por entre os escolhos ao caminho do mistério que ocupa os dias de Jonas, este romance acaba por ser, declaradamente, uma homenagem ao mestre do «thriller» Rubem Fonseca. Uma muito saborosa homenagem, anote-se, malgrado as fezes que o atravessam…
Outras Informações :
ISBN: 978-989-625-359-2
Nº de Páginas: 168
Peso: 220 g.
Dimensões 13,5x21 cm
Ano de Edição: 2009
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